Quando estamos trabalhando com dois espaços vetoriais e munidos de produto interno, podemos associar a cada transformação linear de para uma transformação linear de para que possui algumas propriedades interessantes. Essa transformação é chamada de adjunta de e serve de alicerce para um dos principais resultados da Álgebra Linear, o Teorema Espectral.
Conceitos iniciais - Funcionais lineares¶
Antes de falarmos sobre a adjunta propriamente, precisamos de um teorema central acerca de um tipo especial de transformações lineares, os funcionais lineares.
Em relação ao funcional do exemplo anterior, se considerarmos , então dado temos
onde denota o produto interno euclidiano. De maneira geral, em um espaço munido de produto interno (um produto interno qualquer, não necessariamente o euclidiano), ao fixarmos , a função dada por
define um funcional linear em (a linearidade de é evidente pela linearidade do próprio produto interno). O teorema a seguir mostra que, na verdade, vale a recíproca: todo funcional linear pode ser representado dessa forma, através do produto interno.
Demonstração 8.3
Começamos provando a existência de . Seja e uma base ortonormal de , então
Portanto, definindo , temos .
Agora, provamos a unicidade de . Suponha que existam e em tais que, para todo , tenha-se
Logo,
para todo . Em particular, se tomarmos teríamos , implicando que , pela propriedade 1 do produto interno. Ou seja, , mostrando a unicidade de .
Definição de adjunta e exemplo¶
A definição de adjunta tem uma construção um pouco mais sofisticada, onde utilizamos o Teorema 8.3 (Teo. da representação de Riesz).
É importante perceber bem como é feita essa definição. Primeiramente, note que consideramos uma transformação qualquer, é a partir dela que construímos a função associada. Então, fixando um vetor , através da construção feita associamos a ele um único vetor , com a propriedade de que para todo (note que na esquerda temos o produto interno de , enquanto na direita temos o produto interno em ). Como o vetor considerado é arbitrário, o que fazemos é associar a cada , um único vetor em . Assim, temos uma função de para . Em particular, essa função possui uma propriedade muito importante:
para quaisquer e .
Na prática, podemos pensar na adjunta como uma “inversa em relação ao produto interno”. Mas, claro, não é exatamente isso em um sentido técnico.
Antes de prosseguirmos, devemos constatar um fato essencial sobre essa nova função que definimos.
Demonstração 8.5
Consideremos e . Veja que para todo temos
Logo, o vetor dado por satisfaz para todo . Mas, pelo Teorema 8.3 (Teo. da representação de Riesz) e pela definição da adjunta, esse vetor é único e corresponde exatamente a . Isto é, , mostrando a aditividade da adjunta.
Além disso, veja que
Pelo mesmo raciocínio empregado no caso da aditividade, temos , mostrando a homogeneidade de e, portanto, sua linearidade.
Vejamos como determinar algebricamente a adjunta de uma transformação linear.
Propriedades da adjunta¶
Utilizando a Definição 8.4 (Adjunta) e a linearidade do produto interno, de maneira similar ao que é feito em Demonstração 8.5, é possível verificar as seguintes propriedades da adjunta:
Além dessas propriedades fundamentais, temos relações importantes entre os núcleos e imagens de uma transformação e sua adjunta.
Demonstração 8.8
Provaremos 1. inicialmente. Seja , então
A partir de 1. podemos obter as outras: ao tomarmos o complemento ortogonal em ambos os lados da igualdade obtemos 4. Então, substituindo por em 1. e 4. obtemos 3. e 2., respectivamente.
A adjunta matricialmente (matriz transposta)¶
Naturalmente, pela equivalência existente entre transformações lineares e matrizes, a adjunta também possui uma interpretação matricial. O principal resultado nos diz que, quando lidando com bases ortonormais, a matriz de corresponde exatamente a transposta da matriz de .
Demonstração 8.9
Veja que a -ésima coluna de corresponde aos escalares de escrito como combinação linear da base (caso necessário, relembre o tópico de transformações lineares e matrizes). Pelo fato de ser ortonormal, então tal combinação linear é dada por
Logo, a entrada na linha e coluna de é igual a . Ao fazermos essa mesma análise, mas substituindo por e trocando os papéis de e de acordo, podemos então afirmar que a entrada na linha e coluna de é igual a . Mas, por outro lado,
que corresponde exatamente a entrada da linha e coluna de . No fim, o que isso nos diz é que cada entrada de é igual a entrada de , ou seja, é igual a transposta de .
É comum denotar o conjunto de todos os funcionais lineares de um espaço como . Verifica-se que constitui um espaço vetorial, que é chamado de dual de .