O Teorema Espectral é um importante resultado na Álgebra Linear, diz respeito à existência de uma base ortonormal formada por autovetores de um operador auto-adjunto para o espaço vetorial o qual ele atua. Dividiremos-o em dois casos que, na prática, são correspondentes: Operadores auto-adjuntos e matrizes simétricas. O segundo caso surge naturalmente como um corolário do primeiro, devido a relação entre operadores e matrizes.
Teorema Espectral (Operadores auto-adjuntos)¶
A sua demonstração requer dois resultados prévios. Em ambos, é um operador linear auto-adjunto sobre um espaço vetorial de dimensão finita e munido de produto interno:
Demonstração 10.2
Seja e . Então, dado que (pois é -invariante), temos que
Por outro lado, dado que é auto-adjunto, . Ou seja, , para todo e . Isso implica que e portanto é -invariante.
Demonstração 10.3
Considere uma base ortonormal de e . Como é auto-adjunto, então é uma matriz simétrica (pelo Teorema 9.6 (Caracterização de operadores auto-adjuntos)).
Sabemos que é autovalor de se, e somente se, , onde é o polinômio característico de . Considere que é uma raiz de (cuja existência é garantida pelo Teorema Fundamental da Álgebra, podendo ser uma raiz real ou complexa), vamos mostrar então que .
Dado que , então o sistema linear possui infinitas soluções não nulas para . Consideremos que
é uma delas.
Escrevendo na forma de sistema linear, obtemos
Então, multiplicando por , encontramos
Dessa forma, somando estes resultados, obtemos
(note que representa o módulo de um número complexo, um valor real, logo o somatório ).
Mostremos então que o somatório à esquerda das igualdades também pertence aos reais. Ou seja,
Utilizando as propriedades do conjugado e que é uma matriz real (logo e ), obtemos
Como é simétrica (), podemos trocar os índices e de lugar no somatório à direita das igualdades, obtendo
o que procurávamos.
Assim, dado que os somatórios nas igualdades (5) são reais, podemos concluir que .
Agora, podemos provar o Teorema Espectral.
Demonstração 10.1 (Teorema Espectral para operadores auto-adjuntos)
A prova se dá por indução sobre a dimensão de . Consideremos .
Como caso base, se , qualquer forma uma base do espaço. Naturalmente, é uma base ortonormal de . Ademais, também é formada por um autovetor, uma vez que se , então , para algum , dado que é uma base.
Como hipótese de indução, considere e suponha que o Teorema vale para todo espaço com dimensão menor que . O Lema 10.3 garante que existe um autovetor de (em particular, unitário) , associado a um autovalor real . Seja , temos então que . Além disso, seja , e . Logo, é -invariante. Consequentemente, pelo Lema 10.2, também é -invariante.
Dado que e é -invariante, vale a hipótese de indução. Logo, existe uma base ortonormal de formada por autovetores de . Naturalmente, como , é uma base ortonormal de formada por autovetores de .
Verifica-se sem muita dificuldade que, em espaços vetoriais reais, a recíproca do Teorema Espectral é verdadeira: Se existe uma base ortonormal formada por autovetores de , então é auto-adjunto.
Teorema Espectral para matrizes simétricas¶
Demonstração 10.4
Seja tal que . Como é simétrica e a base canônica é ortonormal, então é auto-adjunta. Logo, do Teorema Espectral sabemos que existe uma base de formada por autovetores de . Seja (), então
Além disso, , onde é a matriz mudança de base de para . Dado que é ortonormal, então é ortogonal. Ou seja, .
O fato de podermos garantir que matrizes simétricas podem ser diagonalizadas e sabermos como encontrar a matriz diagonal tem grande aplicação prática e computacional, como veremos no exemplo a seguir.
Observe como reduzimos um cálculo que seria de produtos de matrizes em dois produtos de matrizes!
Para um computador, o custo de calcular , e dois produtos matriciais é ordens de grandeza menor que o de calcular produtos matriciais (na maioria dos casos).