Os conceitos de autovalores e autovetores são um dos mais centrais na Álgebra Linear, possuindo inúmeras consequências e aplicações. Aqui, voltaremos nossa atenção para o estudo dos operadores lineares (transformações lineares de um espaço vetorial para ele mesmo), em particular, subespaços do espaço domínio com propriedades especiais em relação a um dado operador.
Lembre-se que denota o conjunto dos operadores lineares em um espaço vetorial de dimensão finita.
Noções iniciais - Subespaços invariantes¶
Um subespaço invariante é um subespaço “fechado” sobre um operador , todos os vetores desse subespaço são levados por em vetores também desse subespaço.
É comum denotarmos para o operador restrito ao subespaço como domínio, ou seja, com e a transformação dada por . Nesse sentido, é um subespaço invariante sobre quando é um operador em ().
Autovetores e autovalores¶
O estudo dos autovetores e autovalores se inicia com o enfoque em subespaços invariantes de dimensão 1.
Veja que se um subespaço de dimensão 1 é invariante sobre e é uma base desse subespaço, então deve corresponder a um múltiplo escalar de . Ou seja,
Reciprocamente, se é não nulo e tal que , para algum , então o subespaço é um subespaço invariante de dimensão 1 com relação à .
Essa noção nos leva à seguinte definição:
Chamamos o subespaço invariante de dimensão 1 gerado por de autoespaço associado a . Note que todo vetor pertencente ao autoespaço de (ou seja, os múltiplos de ) também será um autovetor associado ao mesmo autovalor . Se pensarmos no caso do , todo autoespaço de um operador linear corresponde a uma reta (a gerada pelo autovetor correspondente) que é preservada (mantida no lugar) com a aplicação do operador.
Observe também que não é feita nenhuma restrição em relação ao valor de . Em particular, quando existem autovetores associados ao autovalor , o operador não será invertível, pois o seu núcleo é não trivial (lembre-se que autovetores são não nulos por definição).
Um exemplo trivial de autovetores e autovalores provém do operador identidade, . Para todo temos , logo, todo vetor do espaço é um autovetor de , com autovalor associado igual a 1.
Antes de partirmos para um exemplo prático, considere a seguinte observação:
É através dessa observação e do Teorema 4.18 (Invertibilidade de uma matriz) que encontramos/calculamos os autovetores e autovalores de um operador linear (lembre-se que toda transformação linear está associada a uma matriz).
Como já comentado algumas vezes, os autoespaços, do ponto de vista geométrico (pensando no ), são retas preservadas após a aplicação do operador. No exemplo anterior, os autoespaços correspondem aos eixos do plano, com a reta das abcissas correspondendo ao autoespaço gerado por e a reta das ordenadas ao autoespaço gerado por . O vídeo abaixo ilustra visualmente essa ideia. Veja que o comportamento geométrico da transformação do exemplo anterior é de alongar a componente horizontal por um fator 2 e comprimir a componente vertical por um fator . Observe o eixo , destacado em amarelo:
O eixo também é preservado, já que também é autovetor.
Parte da importância prática de autovetores/autovalores se deve a essa noção de “preservação” sobre uma transformação.
Por último, temos um importante teorema e corolário envolvendo autovalores e autovetores.
Demonstração 6.7
Suponha que é linearmente dependente. Proposição 2.11 garante que existe pelo menos um índice entre 1 e tal que . Escolha como sendo o menor dos índices que satisfaz essa condição. Logo, existem tais que
Conforme cada é um autovetor com autovalor associado , aplicando em ambos os lados da equação obtemos
Ao multiplicarmos a equação (11) por e da equação resultante subtrairmos a equação (12), obtemos
Note que pela escolha de devemos ter linearmente independente. Logo, cada escalar na equação acima deve ser igual a zero. Uma vez que, por hipótese, cada autovalor é distinto dos demais, temos para todo . Assim, a única possibilidade restante é que . Mas, retornando a (11), isso implicaria que , uma contradição ao fato de que é um autovetor (por definição não nulo). Portanto, deve ser linearmente independente.
Demonstração 6.8
Sejam autovalores distintos de com respectivos autovetores associados. Pelo teorema anterior, é linearmente independente. Proposição 2.26 garante que . Em particular, a dimensão do subespaço é , pois os autovetores são linearmente independentes. Portanto, .
A restrição de que seja não nulo provém do fato de que caso , para qualquer teríamos , então 0 seria sempre autovetor de qualquer autovalor . Essa restrição remove esse caso trivial e torna a definição mais “limpa”, focando somente nos casos relevantes.