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Fundamentos

2. Propriedades de espaços vetoriais de dimensão finita

Os conceitos discutidos no tópico anterior são válidos para espaços vetoriais arbitrários. Daqui em diante, os espaços vetoriais considerados possuem dimensão finita (o significado de dimensão ficará claro futuramente).

Combinações lineares e espaço gerado

Quando span(v1,,vn)=V\text{span}(v_{1},\dots,v_{n})=V, dizemos que (v1,,vn)(v_{1},\dots,v_{n}) gera VV. Logo, dizemos que um espaço vetorial tem dimensão finita quando uma quantidade finita de seus elementos o gera.

Independência linear

De maneira similar à definição de soma direta para um conjunto de subespaços, definimos o conceito de independência linear para uma lista de vetores.

Através da definição, verifica-se sem muita dificuldade que toda lista de vetores que está contida em uma lista linearmente independente também será linearmente independente.

Um exemplo típico de vetores linearmente dependentes são múltiplos (quando um vetor é o outro multiplicado por um escalar).

De maneira geral, sempre que tivermos o vetor nulo pertencente à lista de vetores, então ela será linearmente dependente: se considerarmos 0=α00+α1v1++αnvn0=\alpha_{0}0+\alpha_{1}v_{1}+\dots+\alpha_{n}v_{n}, dados valores de α1,,αn\alpha_{1},\dots,\alpha_{n} que satisfaçam α1v1++αnvn=0\alpha_{1}v_{1}+\dots+\alpha_{n}v_{n}=0 (mesmo que sejam todos nulos), então qualquer α0R\alpha_{0} \in \mathbb{R} irá satisfazer a igualdade. Logo, mesmo que (v1,,vn)(v_{1},\dots,v_{n}) seja linearmente independente, ao adicionarmos o vetor nulo a lista se torna linearmente dependente.

Esse resultado nos diz que é possível reduzir uma lista de vetores linearmente dependentes em uma lista linearmente independente, removendo vetores que são combinação linear de outros vetores da lista (no caso da lista conter somente o vetor nulo, a lista resultante desse processo é vazia, assumida como linearmente independente por convenção).

A partir desses resultados também obtemos que qualquer subespaço de um espaço de dimensão finita terá, da mesma forma, dimensão finita. Como é de se esperar.

Bases

A união entre os conceitos de espaço gerado e independência linear origina a ideia de base, central na Álgebra Linear.

Veja que multiplicar os vetores da base canônica por escalares quaisquer não altera as duas propriedades que fazem deles uma base. Logo, existem infinitas bases para Rn\mathbb{R}^{n}. Existem também bases formadas por vetores que não são somente múltiplos dos vetores da base canônica, como ilustra o próximo exemplo.

Esse exemplo nos dá um indício de que bases são maximais em relação à quantidade de vetores, pois a inclusão de um novo vetor à base do Exemplo 2.15 fez com que uma das condições necessárias em Definição 2.13 (Base) falhasse. De fato isso é verdadeiro, como será visto posteriormente.

Antes de partirmos para as proposições e teoremas, um último exemplo ilustrando uma base de um espaço vetorial diferente do Rn\mathbb{R}^{n}:

A Proposição 2.18 (Caracterização de bases) nos permite definir um conceito muito utilizado, as coordenadas de um vetor com relação a uma base específica.

Esse teorema nos garante que todo espaço vetorial de dimensão finita possui uma base, uma vez que possui uma lista finita de vetores que o gera e então podemos reduzi-la em uma base.

Agora, mostramos o processo contrário ao do teorema anterior, que toda lista linearmente independente pode ser estendida em uma base, adicionando novos vetores.

Um resultado similar, sobre subespaços e somas diretas, pode ser extraído a partir desse teorema: Dado um subespaço WW de VV, existe outro subespaço UU de VV, de modo que V=WUV=W\oplus U. A ideia é considerar uma base de WW (que existe, pelo Teorema 2.21 (Spans podem ser reduzidos em uma base)) e completá-la em uma base de VV usando o Teorema 2.22 (Vetores LI podem ser estendidos em uma base), os vetores complementares obtidos serão a base do subespaço UU. É fácil verificar que isso nos dará V=WUV=W\oplus U. Note que se W=VW=V, então U={0}U=\{ 0 \}.

Por fim, um resultado que é naturalmente esperado e é importante para a definição de dimensão:

Dimensão

A definição de dimensão para um espaço de “dimensão finita” parece circular, mas lembre-se que um espaço possui dimensão finita se pode ser gerado por uma lista finita de vetores, e essa definição não depende do conceito de dimensão definido agora. A necessidade de especificar que o espaço tenha dimensão finita se dá, pois, se o espaço possuir dimensão infinita, então qualquer uma de suas bases conterá infinitos elementos, logo, o conceito de “comprimento” não será mais limitado a um número real, fugindo do escopo elementar da Álgebra Linear.

Como já mencionado, todo subespaço de um espaço de dimensão finita terá dimensão finita. Então, naturalmente, temos o seguinte resultado:

Os próximos dois resultados mostram que se uma lista de vetores possui comprimento igual a dimensão do espaço, somente uma das condições em Definição 2.13 (Base) precisa ser verificada para que a lista seja uma base desse espaço. Em ambos os casos, VV é um espaço de dimensão finita.

O teorema a seguir nos dá uma fórmula para a dimensão da soma de dois subespaços. Observe que ela é análoga à fórmula da cardinalidade da união de dois conjuntos finitos, dada por AB=A+BAB|A\cup B|=|A|+|B|-|A\cap B|.

Por fim, temos uma proposição que relaciona dimensão e soma direta.

Footnotes
  1. Alternativamente, encontra-se a notação [{v1,,vn}][\{ v_{1},\dots,v_{n} \}].