Os conceitos discutidos no tópico anterior são válidos para espaços vetoriais arbitrários. Daqui em diante, os espaços vetoriais considerados possuem dimensão finita (o significado de dimensão ficará claro futuramente).
Combinações lineares e espaço gerado¶
Quando , dizemos que gera . Logo, dizemos que um espaço vetorial tem dimensão finita quando uma quantidade finita de seus elementos o gera.
Independência linear¶
De maneira similar à definição de soma direta para um conjunto de subespaços, definimos o conceito de independência linear para uma lista de vetores.
Através da definição, verifica-se sem muita dificuldade que toda lista de vetores que está contida em uma lista linearmente independente também será linearmente independente.
Um exemplo típico de vetores linearmente dependentes são múltiplos (quando um vetor é o outro multiplicado por um escalar).
De maneira geral, sempre que tivermos o vetor nulo pertencente à lista de vetores, então ela será linearmente dependente: se considerarmos , dados valores de que satisfaçam (mesmo que sejam todos nulos), então qualquer irá satisfazer a igualdade. Logo, mesmo que seja linearmente independente, ao adicionarmos o vetor nulo a lista se torna linearmente dependente.
Demonstração 2.11
Se é linearmente dependente, então de modo que pelo menos um dos escalares é não nulo. Como , não podemos ter , (pois, nesse caso, para a igualdade valer deveríamos ter também, logo, todos os escalares seriam nulos, uma contradição). Dessa forma, existe pelo menos um tal que . Seja o maior elemento em com essa propriedade, podemos escrever:
(observe que, pela escolha de , os escalares com índice maior que são nulos).
Para a segunda parte, considere . Logo, existem tais que
Substituir na equação acima pelo lado direito da equação (8) mostra que pertence ao espaço gerado pela lista resultante da remoção de de , logo, os dois espaços gerados são iguais (pois é um elemento arbitrário de e, por outro lado, o espaço gerado pela lista sem está contido no espaço gerado pela lista completa).
Esse resultado nos diz que é possível reduzir uma lista de vetores linearmente dependentes em uma lista linearmente independente, removendo vetores que são combinação linear de outros vetores da lista (no caso da lista conter somente o vetor nulo, a lista resultante desse processo é vazia, assumida como linearmente independente por convenção).
Demonstração 2.12
Suponha que e é linearmente independente. Observe que ainda gera e é linearmente dependente (pois como geram , pode ser escrito como combinação linear deles). Logo, uma vez que (pois é linearmente independente), podemos remover um dos ’s de modo que a lista resultante ainda gera (utilizando Proposição 2.11).
A partir dessa lista resultante, continuamos o processo, fazendo o mesmo para , ... até . Em cada etapa, substituímos um por um , com a lista resultante ainda gerando . Logo, ao adicionarmos , na -ésima etapa, a lista resultante será linearmente dependente. Se não tivéssemos um para remover teríamos uma contradição, pois a lista resultante seria , que é linearmente independente.
Isso implica que devemos ter uma quantidade de ’s pelo menos igual a quantidade de ’s. Ou seja, .
A partir desses resultados também obtemos que qualquer subespaço de um espaço de dimensão finita terá, da mesma forma, dimensão finita. Como é de se esperar.
Bases¶
A união entre os conceitos de espaço gerado e independência linear origina a ideia de base, central na Álgebra Linear.
Veja que multiplicar os vetores da base canônica por escalares quaisquer não altera as duas propriedades que fazem deles uma base. Logo, existem infinitas bases para . Existem também bases formadas por vetores que não são somente múltiplos dos vetores da base canônica, como ilustra o próximo exemplo.
Esse exemplo nos dá um indício de que bases são maximais em relação à quantidade de vetores, pois a inclusão de um novo vetor à base do Exemplo 2.15 fez com que uma das condições necessárias em Definição 2.13 (Base) falhasse. De fato isso é verdadeiro, como será visto posteriormente.
Antes de partirmos para as proposições e teoremas, um último exemplo ilustrando uma base de um espaço vetorial diferente do :
Demonstração 2.18
Se é uma base de , em particular, gera . Logo, para todo , existem de modo que . Quanto à unicidade, se existem tais que , então
Pelo fato de ser linearmente independente (pois é uma base), devemos ter , implicando que , provando que os escalares são únicos.
A volta é direta: se todo vetor em pode ser escrito como combinação linear de então estes vetores geram . Além disso, se essa escrita é única, então o vetor nulo só pode ser escrito trivialmente, ou seja, e são linearmente independentes. Logo, é uma base de .
A Proposição 2.18 (Caracterização de bases) nos permite definir um conceito muito utilizado, as coordenadas de um vetor com relação a uma base específica.
Demonstração 2.21
Suponha que gera . Primeiramente, se remova-o. A partir disso, uma aplicação sequencial de Proposição 2.11 indo de até , removendo os vetores que pertencem ao espaço gerado pelos anteriores, nos dará uma nova lista que ainda gera e que é agora linearmente independente, ou seja, uma base de .
Esse teorema nos garante que todo espaço vetorial de dimensão finita possui uma base, uma vez que possui uma lista finita de vetores que o gera e então podemos reduzi-la em uma base.
Agora, mostramos o processo contrário ao do teorema anterior, que toda lista linearmente independente pode ser estendida em uma base, adicionando novos vetores.
Demonstração 2.22
Seja linearmente independente e tais que . Começamos verificando se pertence ao . Se não pertencer, adicionamos-o a lista , caso contrário, não o adicionamos. Repetimos o processo para , verificando se ele pertence ao espaço gerado pela nova lista (que pode ter ou não novos elementos). Fazendo isso até , ao final obtemos uma lista linearmente independente (pois nenhum vetor na lista pertence ao span dos anteriores) e que gera (pois todos os pertencem ao span da nova lista, e eles geram ). Logo, construímos uma base de .
Um resultado similar, sobre subespaços e somas diretas, pode ser extraído a partir desse teorema: Dado um subespaço de , existe outro subespaço de , de modo que . A ideia é considerar uma base de (que existe, pelo Teorema 2.21 (Spans podem ser reduzidos em uma base)) e completá-la em uma base de usando o Teorema 2.22 (Vetores LI podem ser estendidos em uma base), os vetores complementares obtidos serão a base do subespaço . É fácil verificar que isso nos dará . Note que se , então .
Por fim, um resultado que é naturalmente esperado e é importante para a definição de dimensão:
Demonstração 2.23
Sejam e bases de , utilizamos o Teorema 2.12: Por um lado, é uma lista de vetores linearmente independentes em e é uma lista de vetores que gera , logo, . Por outro lado, invertendo os papeis de e , obtemos . Ou seja, e as bases possuem a mesma quantidade de vetores.
Dimensão¶
A definição de dimensão para um espaço de “dimensão finita” parece circular, mas lembre-se que um espaço possui dimensão finita se pode ser gerado por uma lista finita de vetores, e essa definição não depende do conceito de dimensão definido agora. A necessidade de especificar que o espaço tenha dimensão finita se dá, pois, se o espaço possuir dimensão infinita, então qualquer uma de suas bases conterá infinitos elementos, logo, o conceito de “comprimento” não será mais limitado a um número real, fugindo do escopo elementar da Álgebra Linear.
Como já mencionado, todo subespaço de um espaço de dimensão finita terá dimensão finita. Então, naturalmente, temos o seguinte resultado:
Demonstração 2.26
Observe que qualquer base de é uma lista linearmente independente de vetores que também pertencem a . Logo, pelo Teorema 2.22 (Vetores LI podem ser estendidos em uma base), pode ser estendida em uma base de , o que implica que .
Os próximos dois resultados mostram que se uma lista de vetores possui comprimento igual a dimensão do espaço, somente uma das condições em Definição 2.13 (Base) precisa ser verificada para que a lista seja uma base desse espaço. Em ambos os casos, é um espaço de dimensão finita.
Demonstração 2.27
gera , pelo Teorema 2.21 (Spans podem ser reduzidos em uma base) essa lista pode ser reduzida em uma base de . Por outro lado, já possui comprimento igual a . Como todas as bases possuem mesmo comprimento, a redução deve ser a trivial, isto é, já é uma base de .
Demonstração 2.28
O raciocínio é similar à proposição anterior. é linearmente independente, que pelo Teorema 2.22 (Vetores LI podem ser estendidos em uma base) pode ser estendida em uma base de . Mas, seu comprimento é igual a dimensão de (e todas as bases possuem comprimento igual a dimensão de ), logo, a extensão é a trivial e já é uma base de .
O teorema a seguir nos dá uma fórmula para a dimensão da soma de dois subespaços. Observe que ela é análoga à fórmula da cardinalidade da união de dois conjuntos finitos, dada por .
Demonstração 2.30
Começamos considerando uma base de , logo, temos que . Observe que, por ser uma base da interseção entre e , é uma lista de vetores linearmente independentes simultaneamente em e em . Logo, podemos estender para uma base de , assim como para uma base de (note que cada é elemento de , enquanto que cada é elemento de ). Daí, temos que e . Veja que gera , logo, se tal lista for linearmente independente será uma base de , de onde teremos
Para mostrar que é linearmente independente, consideramos
e devemos mostrar que todos esses escalares são nulos. Podemos reescrever a igualdade como
Lembrando que é uma base de , essa última igualdade nos diz que . Por outro lado, cada está em , logo, . Assim, utilizando a base de , podemos escrever
para escalares . Subtraindo o membro da direita em ambos os lados da última igualdade e lembrando que é uma base de (logo, é linearmente independente), obtemos que . Em particular, os escalares ’s são todos nulos, logo, considerando esse fato na igualdade (25) obtemos
Similarmente, invocamos o fato de que é uma base de e, portanto, é linearmente independente, donde obtemos que todos os escalares ’s e ’s são nulos, concluindo a demonstração.
Por fim, temos uma proposição que relaciona dimensão e soma direta.
Demonstração 2.31
Utilizaremos a Proposição 1.17 do tópico anterior. Já temos que (pela condição 1), restando mostrar que , com , implica que .
Considere, para cada , uma base . Observe que a lista resultante da união dessas bases, dada por , gera (pela condição 1 novamente) e possui comprimento igual a dimensão de (utilizando a condição 2, uma vez que o comprimento dessa lista é a soma dos comprimentos das bases de cada , e o comprimento de cada base é exatamente ). Logo, é uma base de e, em particular, é uma lista linearmente independente. Então, ao reescrevermos cada em como uma combinação linear da sua respectiva base obtemos que todos os escalares são nulos, consequentemente, cada será o vetor nulo, concluindo a demonstração.
Alternativamente, encontra-se a notação .